Mônica Gisele Custódio, 22 anos, cursa Publicidade e Propaganda e trabalha como atendente e assessora de imprensa em uma produtora de softwares. Com sete anos teve seu primeiro contato com videogame e aos 12 anos com jogos na internet, interesse que mantém até hoje. Já fez cursos de animação, técnico em moda e dança do ventre, e hoje faz aulas de boxe.
Rodrigo Martins de Souza, 27 anos, formou-se em Arquitetura e Urbanismo, especializou-se em gestão de empresas, hoje é diretor de arte e design em uma produtora de softwares, dá aulas de Desenho Industrial em uma faculdade e toca numa banda de rock. O primeiro contato que teve com tecnologias foi com um videogame aos seis anos.
O que eles têm em comum, além de trabalharem juntos e se interessarem por jogos eletrônicos? Ambos nasceram na década de 1980 e ocupam hoje espaço no mercado de trabalho. Fazem parte da chamada geração Y.

“Esse é o publico que está chegando às empresas. Não tem mais como negar sua existência. E o que acontece agora é que essa geração é a primeira formada por superestimulação por informações desde criança”, afirma o consultor em gestão empresarial Sidnei Oliveira, em referência à superestimulação proporcionada pela tecnologia que começou a agir com mais intensidade dos anos 1980 pra cá.
De acordo com o consultor que recentemente lançou um livro sobre o assunto, o jovem Y pôde ter contato com outras partes do mundo sem sair de casa. Soma-se a isso o fato de que as opções de cursos nas faculdades ou fora delas são muito maiores do que nas gerações anteriores. Todo esse acesso a novas informações, no entanto, fizeram desse jovem mais “desfocado”, como designa Oliveira.
“O jovem é meio oprimido por todas essas possibilidades. É muito comum encontrar jovens sabendo que têm que fazer uma faculdade, mas sem saber o que precisam fazer. Eles não têm perspectiva do futuro pessoal”. Eles também são mais ansiosos (têm pressa em ver as coisas acontecerem) e mais questionadores. Mas questionam para aprender.
“A geração Y tem mais dificuldade em se adaptar a padrões preestabelecidos dentro da empresa, de postura profissional, de cumprir horários. Mas justamente por não estar acostumado a ficar preso a horários que, quando ele começa um trabalho, vai até o fim”, analisa Roberto Nishimura, gestor de Tecnologia de Informática da Sercomtel – que tem sete funcionários abaixo dos 30 anos, em um total de 50.
“O jovem da geração Y acha esquisito esse conceito de dia útil assim como acha esquisito esse conceito de telefone com disco”, compara Sidnei Oliveira. É por isso que ele junta o dever com o prazer, e busca trabalhar em lugares onde faça o que gosta e se sinta bem. E se não estiver se sentindo bem no lugar onde trabalha, sai para buscar novos desafios.
“Uma reclamação muito constante dos gestores é que o profissional jovem não veste a camisa da empresa. Ele pensa em ficar lá até enquanto estiver aprendendo, sendo desafiado, enquanto sentir beneficio de estar na empresa”, avalia o consultor.
Metas fazem bem ao jovem.
“Se colocar um jovem Y para realizar trabalhos rotineiros, pode ser que ele não consiga. Mas colocá-lo para fazer trabalhos mais desafiadores, com metas e objetivos, pode ser que eles tragam um rendimento melhor, porque estão mais acostumados a desafios”, expõe o gestor Roberto Nishimura.
Desafiar o jovem é também o que se faz na produtora de softwares Oniria, em Londrina, onde quase 60%dos funcionários são da geração Y. “A gente tenta criar sempre eventos em que o pessoal possa trocar idéias e dá muito apoio para eles criarem seus próprios projetos. Incentivamos a participação em concurso nacional na área de jogos de computador ou de mídia, por exemplo”, conta o proprietário da empresa, Juliano Alves.
Lá o trabalho é feito com banco de horas, sem necessidade de horário fixo. A internet é habilitada para todos, sem restrições, e já entrou em execução o projeto de uma sala de descanso com biblioteca e videogames “para o pessoal poder criar”, como diz o próprio Alves, que não nasceu nos anos 1980, mas quase lá.
“Hoje não adianta simplesmente encher a pessoa de trabalho, gritar com ela. A era industrial já mostrou que isso é errado”, diz.
Como então a empresa deve lidar com esse novo jovem?
“Primeiro, se perguntando: vale a pena reter esse jovem? Ele é um talento, uma pessoa que apresenta resultados relevantes? Se for, preciso abrir um canal de comunicação com ela: o que essa pessoa tem de expectativa? Como eu posso alinhar a minha expectativa com a dela? Se a empresa tentar entender onde o jovem quer chegar, ela pode redirecioná-lo”, orienta o consultor Sidnei Oliveira. Com sucesso, ele garante que a empresa entra em uma vantagem competitiva por ser mais flexível e inovadora, e o próprio cliente começa a perceber isso.
Nesse contexto, muitos gestores podem ficar com medo de perder seus lugares para os jovens Y, muito mais qualificados, mas Oliveira recomenda: “O gestor atual não tem que competir com o que está chegando, mas dar um direcionamento para essa energia, toda essa qualificação”.
Veículo: Folha de Londrina 10/08 – Mie Francine Chiba